A eleição de um novo Coordenador Mundial dos Salesianos Cooperadores abre um novo capítulo para a Associação fundada por Dom Bosco há 150 anos. Entre o sentido de missão, a continuidade do carisma salesiano e os desafios de acompanhar os jovens num mundo em mudança, Borja Pérez assume o cargo com “serenidade e profunda gratidão”, consciente de que “toda a liderança salesiana é, antes de mais nada, um serviço fraterno”.
Em entrevista, o novo Coordenador Mundial fala das prioridades para os próximos anos, da importância dos leigos na Igreja e do sonho de uma Associação “mais humana, fraterna e com uma identidade salesiana clara”.
Como recebeu a notícia da sua eleição como Coordenador Mundial dos Salesianos Cooperadores?
Recebi-a com serenidade e profunda gratidão. Como já disse entrevista, senti-me muito grato pela confiança depositada em mim, mas, ao mesmo tempo, com um grande sentimento de pequenez. Pensei imediatamente nos tantos Salesianos Cooperadores que conheci ao longo dos anos, verdadeiros “santos da porta ao lado”, e senti que esta missão só faz sentido se for vivida com humildade e serviço.
O que significa para si assumir este cargo?
Significa colocar os meus talentos ao serviço da Associação e da sua missão. Esta disponibilidade estende-se agora a toda a Associação no mundo. Assumir esta responsabilidade é um ato de confiança em Deus e na Família Salesiana, e também um lembrete de que toda a liderança salesiana é, antes de mais nada, um serviço fraterno.
Quais são as suas prioridades e o que gostaria de desenvolver ou transformar concretamente na Associação durante o seu mandato?
Mais do que de mandato, falaria de serviço de animação e governo… As minhas prioridades nascem dos sonhos que partilhei recentemente: uma Associação mais humana, fraterna e com uma identidade salesiana clara.
Gostaria de impulsionar uma formação mais experiencial, menos centrada apenas em conteúdos teóricos; promover uma cultura de acolhimento incondicional, onde cada pessoa se sinta em casa, dar protagonismo real aos jovens, especialmente àqueles que já fazem parte da Associação; reforçar a centralidade de Cristo, porque «tudo o que fazemos terá significado na medida em que seja Ele quem nos move».
E, claro, trabalhar com o Conselho Mundial a partir de um planeamento abrangente e sinodal.
Quais são, na sua opinião, os principais desafios dos Salesianos Cooperadores no mundo?
Creio que um dos grandes desafios é manter viva a identidade salesiana em contextos culturais muito diversos. Também nos desafia a necessidade de acompanhar os jovens num mundo fragmentado, onde por vezes faltam espaços
de encontro e de esperança. Outro desafio importante é fortalecer a comunhão entre centros, províncias e regiões, para que a riqueza de cada um possa inspirar os outros.
E as maiores oportunidades? O que é que mais o entusiasma neste momento da história da Associação?
Entusiasma-me a oportunidade de renovar a nossa missão no âmbito do 150.º aniversário. Estamos num momento privilegiado para redescobrir o sonho original de Dom Bosco e traduzi-lo para os desafios atuais. Vejo uma Associação viva, com leigos empenhados, com jovens que desejam assumir responsabilidades e com uma Família Salesiana que caminha unida. Essa vitalidade é a nossa maior oportunidade.
O seu percurso na Família Salesiana começou muito cedo. Que marcas dessa trajetória o ajudam, hoje, nesta missão?
A minha história salesiana está marcada pela minha experiência na minha casa salesiana de Santander, pelo meu envolvimento na animação do Movimento Juvenil Salesiano e por tantos salesianos e animadores que me acompanharam. A minha vocação nasce do trabalho pastoral e das experiências partilhadas com salesianos, animadores e jovens. Essa experiência de comunidade, de alegria e de serviço é a marca que hoje me sustenta: saber que a missão salesiana vive-se sempre em família.
É Salesiano Cooperador desde 2007. O que o levou a fazer a promessa e o que significa, atualmente, para si?
Levou-me o desejo de dar continuidade ao meu compromisso pastoral e de viver a minha fé a partir do carisma salesiano. Fazer a promessa em Valdocco, perante o Reitor-Mor, no Campobosco, perante 500 jovens de Espanha e Portugal, foi um imenso presente. Hoje, essa escolha significa fidelidade: continuar a dizer “sim” todos os dias, com simplicidade, à missão que Deus me confia através da Associação.
Ao longo dos anos, sempre esteve ligado à Pastoral Juvenil e ao Movimento Juvenil Salesiano. Que importância atribui ao trabalho com os jovens?
Para mim, é essencial. Os jovens não são apenas destinatários: são protagonistas. Sempre acreditei que oferecer experiências partilhadas entre jovens e adultos da Família Salesiana é a forma de testemunhar a nossa identidade cristã e salesiana. O trabalho com eles rejuvenesce-nos, questiona-nos e obriga-nos a manter vivo o estilo de Dom Bosco.
Como Conselheiro para a Região Ibérica, acompanhou a preparação do 150.º aniversário. Como avalia esse momento para a Associação?
Valorizo-o como um tempo de graça. O 150.º aniversário permitiu-nos olhar para a nossa história com gratidão e projetar-nos para o futuro com esperança. Foi uma oportunidade para fortalecer a comunhão entre regiões, renovar a identidade e recordar que fazemos parte de um sonho que continua vivo.
Na sua opinião, que papel devem desempenhar os leigos salesianos na Igreja e na sociedade de hoje?
Nós, leigos salesianos, somos chamados a ser presença evangélica no meio do mundo, especialmente onde os jovens vivem, trabalham e sonham. O nosso papel é construir pontes, criar comunidade, acompanhar processos e encarnar o estilo educativo de Dom Bosco na vida quotidiana. Somos uma Igreja em saída, com um carisma concreto e uma missão partilhada.
Como imagina a Associação no final do seu mandato?
Imagino-a mais unida, mais sinodal e mais centrada na missão. Sonho com uma Associação onde cada região contribua com a sua riqueza, onde os jovens sejam protagonistas e onde a formação nos ajude a viver, com autenticidade, a nossa identidade salesiana. E, acima de tudo, uma Associação que continue a recordar que Cristo é o centro de tudo.
Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos Salesianos Cooperadores do mundo e, em especial, aos de Portugal e Cabo Verde?
Dir-lhes-ia para viverem a sua vocação com alegria, com simplicidade e com profundidade. Que se lembrem de que fazemos parte de uma grande família e que cada gesto de serviço, por mais pequeno que seja, constrói o Reino.
Aos irmãos e irmãs de Portugal e Cabo Verde, com quem partilhei tantos momentos, agradeço a vossa proximidade, a vossa fé e o vosso testemunho. Caminhemos juntos, sempre com Maria Auxiliadora e com Dom Bosco.

