FPAADB | Partida, largada, fugida…

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Partida, largada, fugida…

Era este o mote para uma grande parte das aventuras dos meus (e talvez, também, dos vossos) tempos de criança. O sinal de partida para a brincadeira, a cumplicidade com os amigos, o ganhar… e o perder! Mas era, acima de tudo, uma ordem para não ficar parado.

Talvez a palavra final da “cantilena” não fosse a mais indicada… mas, ainda assim, não restavam dúvidas… quem não partia e ficava para trás, corria o risco de vir a ser “um ovo podre”.

Vem isto a propósito do momento em que nos encontramos e dos desafios que também a nós, enquanto Antigos Alunos e Família Salesiana em geral, nos são colocados.

Terminada a tradicional “época de férias”, é tempo de preparar o ano pastoral dos nossos respetivos grupos. Fazemo-lo, animados pela esperança de que a pandemia que nos tem acompanhado, nos últimos tempos, começa a dar tréguas, e nos permitirá voltar, gradualmente, a substituir o “digital” pelo “presencial”.

Neste contexto, como nas brincadeiras de criança, também recebemos o aviso de partida, só que, neste caso… em forma de tema pastoral: “Levanta-te e testemunha”.

Muitos de nós já tivemos oportunidade de ler e aprofundar o tema, e, seguramente, nos próximos tempos teremos oportunidade de, nos nossos grupos locais, refletir sobre os desafios que ele traz para a nossa atividade pastoral e para a nossa vida em geral.

A propósito do tema, e tendo em mente, especificamente, o “testemunho”, deixo-vos duas pequenas partilhas, sobre política e ativismo, decorrentes de acontecimentos recentes.


Bons cristãos e honestos cidadãos… sempre e em todo o lado

Temos ainda presentes as eleições autárquicas realizadas há poucos dias. Descansem que não pretendo falar de politiquices partidárias, de esquerda, de direita, de radicais ou de outras coisas que tais.

Surge-me o tema por uma razão específica. Um pouco por todo o país, vários Antigos Alunos (e provavelmente membros de outros grupos da Família Salesiana) se apresentaram a votos para diferentes órgãos, e em alguns casos, inclusive, na mesma freguesia, em listas concorrentes.

Independentemente dos resultados conseguidos por cada um, estão de parabéns, os que ganharam, claro, mas também os que não viram cumpridos os seus objetivos, quanto mais não seja pelo simples facto de se terem comprometido com um projeto.

Em 2020, numa reflexão feita a nível mundial, foi traçado o perfil do Antigo Aluno para o século XXI, onde precisamente a dimensão de cidadão “comprometido socio-politicamente” assume também posição de destaque.

Estar envolvido no meio político, é uma boa forma de dar testemunho, pôr em prática os valores recebidos, ser agente de mudança, defender o bem comum, e no fundo poder – e dever – pôr em prática aquele que é o lema dos Antigos Alunos: Bons Cristãos e Honestos Cidadãos!


Ser voz dos que não têm voz

Tive há dias, no contexto de uma conferência a que assistia, a oportunidade de ouvir o testemunho de Zarifa Ghafari. Provavelmente, a maior parte não está familiarizado com o nome, como era o meu caso, até há uns dias atrás.

Zarifa Ghafari, é uma jovem afegã, de 29 anos. Uma das primeiras mulheres autarcas no Afeganistão. Desde que foi eleita, aos 26 anos, apesar das constantes ameaças à sua vida, nunca desistiu de lutar pelo seu povo e pela sua cidade.

Com a recente subida ao poder dos Talibãs, conseguiu escapar do país escondida na mala do carro, naqueles dias caóticos de agosto, que muitos de nós acompanhámos pela televisão no conforto dos nossos lares.

A viver, hoje, na Alemanha, que lhe concedeu asilo, Zarifa poderia, facilmente, decidir resguardar-se e limitar-se a viver a sua vida confortavelmente e em segurança.

No entanto, sem hesitar, decidiu continuar à distância a fazer ouvir a sua voz, em defesa de todos, e principalmente de todas as que, continuando no seu país, estão agora subjugados pela ideologia Talibã.

Três frases do seu testemunho me ficaram particularmente na memória: “não tenho armas, mas luto com a minha voz”; “se continuar a lutar, a mudança é possível”; e “temos que agir já, porque daqui a uns meses surgirá algum outro acontecimento que mobilizará todo o mundo e ninguém se lembrará do Afeganistão”.

Toda a sua intervenção, me fez refletir como em comparação por vezes nos custa tanto testemunhar na nossa comunidade educativa, no nosso trabalho, no nosso bairro, os nossos valores e aquilo em que acreditamos.

Convido quem quiser conhecer melhor este caso, e até, quem sabe, assinar a petição em curso para implicar a comunidade internacional, na defesa dos direitos humanos que estão a ser atropelados no Afeganistão, a visitar www.zarifaghafari.com.

Num ano pastoral em que somos convidados a “Levantar e testemunhar”, tenhamos presente todos aqueles que, por esse mundo fora, dão a voz e enfrentam adversidades pela defesa dos seus valores.

Se recuarmos ao inicio das nossas congregações, seguramente, nos recordaremos de várias histórias em que os nossos fundadores tiveram, eles mesmos, que enfrentar situações complicadas e adversas.

Coloquemo-nos nas mãos de Deus para que nos lembre sempre de sermos (suas) testemunhas!